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POR QUE LULA É O FAVORITO?

11/09/2006

                                  

Lúcio Flávio Vasconcelos
10.09.06 [15:16]

Por que Lula é o favorito?

Conta a lenda política que Juan Domingos Perón, líder populista que governou a Argentina entre 1946 e 1952, afirmava que o poder era como o violino: você o pega com a esquerda mas o toca com a direita. Perón governou seu país acenando para os descamisados com políticas sociais e se acomodando aos ditames do empresariado nacional. Militar de formação e político por vocação, Perón fundou o Partido Justicialista e influenciou decisivamente a história argentina por mais de trinta anos, até sua morte, em 1973.

Guardando as devidas proporções históricas, sabemos o quanto Lula se afastou do discurso esquerdista, muito mais praticado por militantes petistas do que pelo próprio presidente. Quando Lula despontava como o candidato favorito na disputa de 2002, o velho fantasma do descalabro administrativo e gastança do dinheiro público começou a assombrar os setores mais conservadores da sociedade. O risco Brasil disparou e o mercado financeiro internacional, extremamente sensível a qualquer mudança, olhava com desconfiança a possível gestão presidencial de Lula. As propostas de rompimento com o FMI, não pagamento da dívida externa e uma radical reforma agrária rondavam corações e mentes de alguns militantes mais empedernidos.
Poucos meses antes da eleição, com o intuito de reverter o clima econômico desfavorável, a cúpula do PT lançou a Carta ao Povo Brasileiro, muito mais voltada para apaziguar o nervoso mercando financeiro. Nesse documento, Lula apresentava os pontos básicos do seu futuro governo: rigor fiscal, estabilidade econômica, respeito aos contratos e manutenção do superávit primário, que possibilitaria o pagamento dos juros.

Ao assumir o governo, Lula manteve as metas econômicas ortodoxas enquanto deu início a um processo inédito de transferência de renda. Ao agregar os quatro programas sociais existentes, o Bolsa-Escola, a Bolsa-Alimentação, Cartão Alimentação e Vale-Gás num só programa, o Bolsa-Família, deu mais racionalidade e agilidade na assistência aos milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. Segundo A FGV, a pobreza extrema caiu 8% em 2004, patamar de redução nunca visto no país, desde que se começou a realizar a pesquisa.

Além desse processo de transferência de renda, teve início no Brasil uma distribuição de riqueza. Tradicionalmente, segundo o IPEA, os 50% mais pobres ficavam com 12% da renda nacional. Em 2005, essa mesma massa populacional estava com 14,1%. Desde a década de sessenta, é a maior taxa de distribuição de renda. Quanto ao salário mínimo, hoje em R$ 350, teve um aumento real nesses quatro anos de 25,3%. Significando mais comida na mesa dos mais carentes

Com relação à política de geração de emprego, a meta de criar 10 milhões de novas vagas não foi alcançada. Mas se somarmos os empregos estabelecidos no setor privado com aqueles do setor público, chega-se ao número espantoso de 6,1 milhões de novas vagas. Se tomarmos em comparação o governo FHC, que gerou apenas 800 mil novas vagas, o governo Lula criou, em quatro anos, seis vezes mais empregos do que os oito anos de Fernando Henrique.

No item educação, o governo Lula enfrentou turbulências políticas. Seu primeiro ministro, Cristovam Buarque, tinha idéias próprias e um grau de autonomia política não digerida pelo núcleo duro do poder. Com 13 meses a frente do ministério, foi demitido por telefone. O segundo ministro da educação, Tarso Genro, mais próximo de Lula, afastou-se do ministério para assumir a intervenção do Partido dos Trabalhadores, no auge da já esquecida crise do mensalão. O terceiro e atual ministro, Paulo Haddad, deu continuidade a política de integração de setores populares ao ensino universitário. Mediante a implantação do ProUni, até o final desse ano, 400 mil jovens estarão cursando o nível superior com subsídio governamental.

Com relação à saúde, o governo Lula promoveu uma extensão de auxílios. O programa Farmácia Popular, que tem remédios com descontos de 50% a 90% no preço, está presente em 2.614 unidades espalhadas pelo País. Outras 1.799 estão sendo concluídas. Outro programa de grande impacto social é o Serviço de Assistência Móvel de Urgência (SAMU), que está presente em 789 municípios brasileiros. Além disso, o investimento no Programa Saúde da Família foi ampliado em 80%, com a criação de 9.402 novas equipes, alcançando 45% da população do Brasil.

Por ter desenvolvido um governo nos campos social e econômico bem equilibrado e com conquistas reais, sem buscar fórmulas mágicas para solucionar os problemas mais imediatos da maioria da população, ao mesmo tempo em que se distanciou da retórica agressiva da esquerda, Lula ampliou seu arco de alianças políticas e grau de apoio em vários setores da sociedade. Somado a isso, desponta como o político mais carismático que o Brasil já teve, despertando paixão política naqueles que anseiam a melhora individual e do país. A pergunta é se continuará com o mesmo desempenho no cada vez mais próximo segundo mandato.

Lúcio Flávio Vasconcelos
wscom@wscom.com.br