Voltando pra casa
18/04/2005
Por Ana Adelaide*
Vinha eu de Recife cansada, no final de um dia de estudos e o juízo a passear. Eis que tomei um susto com a entrada de João Pessoa, aquela via de acesso do ônibus que desemboca na Rodoviária. Senti um mal estar. Uma fábrica de cimento fantasmagórica rodeada de pequenas favelas por todos os lados, pobreza, muita pobreza, e logo logo um cemitério mais pavoroso ainda.
E a entrada na própria rodoviária não nos deixa nem um pouco menos sorumbático. Fiquei a pensar nos turistas menos favorecidos, e que chegam à nossa cidade de ônibus que má impressão não vão ter, pois até chegar a tomar um banho de mar numa de nossas lindas praias e ver o por do sol em Jacaré, o caminho é longo!
Mas neste mês em que estive ausente das crônicas, tanta coisa aconteceu! O papa morreu e só se ouve falar de Conclave e de uma fumaçinha branca que está para anunciar um novo nome.
Morreu também o príncipe Rainier, e junto com ele as nossas crenças nos contos de fada. Mas aí casou-se o príncipe Charles com a sua Camila e nos lembrou que o amor prevalece... Mais de perto, morreu D. Santa, uma amiga de outros tempos, uma mulher que eu muitíssimo admirava e que já não se fazem mais nos nossos dias.
Luis Augusto Crispim, com poesia e saudades da Rua das Palmeiras, fez uma linda homenagem á essa linda mulher. Meu primo Paulo Peixoto também foi dar um passeio pelos céus e me lembrar que se visita esse lugar quando se é jovem e cheio de vida também. Saudades profundas da minha infância, dos quitutes de tia Miriam, e das conversas de Tio Chiquinho.
E nessa madrugada morreu Lúcio Lins com seus “sonhos à vela” e suas “ palavras navegáveis” . A poesia paraibana não será a mesma, nem os meus papos na Praça da Alegria do CCHLA.
Lula pediu perdão aos africanos e visitou uma porta chamada “ Nunca mais” . Temos bilhete único nas passagens, mas múltiplas opiniões sobre o novo Governo da nossa cidade. Tivemos um novo movimento cultural na cidade: E viva o Beco! Ou a Confraria do Beco! Sonia van Dijck e cia agitando a intelectualidade paraibana. Sérgio Castro Pinto lançou um livro lindo e soltou os bichos. Flávio Tavares gostou das girafas, com suas não menos belas ilustrações.
Assisti o filme espanhol “ Mar Adendro” , que me emocionou pelo resto do ano, me fez pensar na vida, e principalmente com a força do ser humano. Pensei muito na capacidade do cuidar feminino, pois no filme, 4 mulheres se debatiam para fazer a barba de Ramon, personagem de Javier Bardem. O filme é um mergulho poético e literal do que seja a morte, mas mais ainda do que seja a vida. Ainda estou com as carnes trêmulas!
Mas agora vem a melhor parte: estou estudando sobre o amor! O amor na ficção, ou pelo menos a sua representação. Platão, Ovídio, Freud, Jurandir Freire...Para os meus ouvidos, até já fiz a trilha sonora: “ Os botões da blusa” do rei Roberto para melhores resultados. São tantas coisinhas miúdas que guardarei assunto para uma outra conversa....Estou tão entusiasmada com o assunto dos meus deveres acadêmicos, que quando volto prá casa, que olho meu caderno vermelho rubro escrito love na capa, fico logo mal intencionada, e ouço até sininho ...Tomara que seja aprovada!
* Professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPB. Atualmente se encontra afastada para cursar Doutorado em Teoria Literatura na Pós-Graduação em Letras da UFPE.
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