headerphoto

Infarto agudo do miocardio e angina (Angina Pectoris)

07/12/2004

Cena de telenovela ou filme: um homem segura o peito com trejeitos faciais dolorosos e cai. Ou fala algumas coisas e morre (claro, isto só em filme), ou morre direto ou, então, é rapidamente socorrido e sobrevive (e continua no enredo). Se contássemos o número de vezes em que esta cena se repetiu na dramaturgia mundial, provavelmente ultrapassaríamos a casa do milhão. Em um episódio de Mulher, da emissora brasileira Rede Globo de Televisão, a protagonista principal, uma médica cuja idade gira em torno de 60 anos, interpretada pela atriz Eva Vilma, mostra-se com um quadro de angina pectoris. Submetida à grande esforço, a médica percebe que está tendo um infarto e busca socorro com um colega. A evolução da angina para o infarto e as diferenças do quadro clínico entre os dois, assim como a recuperação da paciente, foram dois pontos altos da produção deste programa - já fora do ar - da TV Globo, tanto do ponto de vista científico quanto dramatúrgico. Não à toa a ficção reproduz a realidade. A doença coronariana é a principal causa de morte em todo o mundo, grande responsável por aposentadorias devidas à invalidez, e uma afecção de difícil convivência. Entretanto, as terapêuticas atuais permitem aos doentes coronarianos crônicos - entre eles, aquele com dor crônica no peito - uma vida de melhor qualidade. Nesta matéria, apresentamos uma introdução à angina e ao infarto agudo do miocárdio. Nas próximas, entre outras coisas, vamos discutir como se convive melhor com a doença coronariana. Angina pectoris Angina pectoris ou angina do peito ou simplesmente angina, é uma dor localizada no centro do peito ou em cima do "coração". Ela pode ser em peso, em aperto, em queimação ou pressão. Ocasionalmente, os pacientes a descrevem como uma angústia ou mal-estar. Ela pode se estender ao braço, geralmente esquerdo, ao pescoço, ao queixo ou às costas. Esta dor aparece quando a quantidade de sangue que chega a uma determinada região do coração é insuficiente para ele, não havendo fornecimento adequado de oxigênio e nutrientes. A angina normalmente está relacionada ao esforço físico e piora à medida que a intensidade do esforço é aumentada. Entretanto, ela pode também ocorrer no momento de repouso. O suprimento de sangue para o coração é feito pelas artérias coronárias. Quando ocorre um entupimento parcial nestas artérias, o coração fica com a irrigação sangüínea reduzida, percebida geralmente durante o esforço, quando o paciente apresenta dor no peito. Este entupimento das artérias coronárias é causado pela aterosclerose, processo em que ocorre uma deposição de gorduras, como o colesterol nas paredes das artérias, o que causa o estreitamento para a passagem do sangue. O colesterol elevado no sangue - a hipercolesterolemia - é uma das principais causas da aterosclerose, que leva ao estreitamento e ao entupimento das artérias coronárias. Além do colesterol, outros fatores de risco também contribuem para o entupimento, como tabagismo, pressão alta (hipertensão arterial sistêmica), diabetes melito, sedentarismo, obesidade e estresse. A nicotina e o monóxido de carbono, agentes liberados pelo cigarro, são os mais implicados na origem das doenças coronarianas e suas manifestações. O turbilhonamento do fluxo coronariano causado pela nicotina e a falta de irrigação sangüínea induzida pelo monóxido de carbono são responsáveis por lesões da camada endotelial (o tecido que recobre os vasos por dentro), que permitem a entrada de gorduras para as camadas mais internas da parede dos vasos, desencadeando todo o processo. Ao lado da hipercolesterolemia e do fumo, os níveis elevados de pressão arterial são um dos mais importantes fatores de risco para doença coronariana. A relação entre os níveis de pressão arterial - principalmente a diastólica (ou mínima) - e a incidência de doença coronariana é direta, isto é, quanto mais alta a pressão, maior é o risco do aparecimento da doença. Infarto agudo do miocárdio Diferente da angina, no infarto agudo do miocárdio há uma interrupção completa do fluxo de sangue para uma determinada região do coração, devido ao entupimento completo de uma artéria coronária. Quando ocorre o infarto, a dor no peito é mais intensa que o habitual - a da angina - (geralmente mais de 30 minutos), acompanhada de náuseas e suor. Neste momento é muito importante que o paciente procure assistência médica com urgência, pois quanto menor o intervalo entre a dor e o atendimento na emergência, maior é a chance de se desobstruir a artéria relacionada ao infarto. Quando o paciente é admitido com quadro de dor no peito com menos de 12 horas de duração, deve-se iniciar o tratamento para desobstruir a artéria. Esta desobstrução pode ser feita com medicamentos ou angioplastia. O medicamento utilizado pertence à classe dos trombolíticos, que atuam dissolvendo o trombo (coágulo) formado nas artérias coronárias no infarto do miocárdio. Nos centros em que se dispõe de serviço de hemodinâmica, a desobstrução pode ser feita através da angioplastia coronária. Além disso, todo paciente com quadro de infarto agudo do miocárdio deve receber 300 mg de aspirina caso não tenha contra-indicações, uma vez que seus benefícios na redução da mortalidade já estão devidamente comprovados. A angioplastia coronária é um procedimento semelhante a uma cinecoronariografia (cateterismo), em que se dilata a lesão da coronária com um cateter especial, que tem um balão na ponta e que, quando inflado, esmaga a placa de ateroma contra a parede da artéria, desentupindo-a. Ocasionalmente, indica-se cirurgia de revascularização (ponte de safena, ponte de mamária) do miocárdio após um quadro de infarto do miocárdio. Na cirurgia de revascularização miocárdica, uma veia é retirada da perna (veia safena) e colocada sobre a artéria entupida, ultrapassando o local do bloqueio. Se houver várias artérias entupidas, cada uma receberá uma ponte. Um tipo de ponte especial poderá ser feita, utilizando-se uma artéria chamada mamária interna. Em resumo, se você tem o diagnóstico de angina evite situações nas quais ela normalmente aparece e informe seu médico sobre alterações ou aparecimento de novos sintomas. Alguns hábitos devem ser modificados: você deve abandonar o fumo, controlar sua dieta e seu colesterol e, ainda, controlar a hipertensão arterial. Além disso, se você apresentar dor no peito prolongada, ou seja, por mais de trinta minutos, procure imediatamente um serviço de emergência. Ir depressa para o pronto-socorro pode reverter um possível infarto do miocárdio através da prescrição precoce de medicamento trombolítico por parte da equipe médica.