O LABIRINTO DE CÁSSIO, por Flávio Lúcio Vieira*

Aécio ciceroneado e festejado por Cássio em Campina Grande ((Foto: Veja)

Aécio ciceroneado e festejado por Cássio em Campina Grande (Foto: Veja)

Cássio Cunha Lima concedeu nesta segunda (11) mais uma entrevista ao programa Rádio Verdade, da Arapuã, e a linha discursiva escolhida não poderia ser mais dissonante: como se ainda estivesse em 2015, como se o Brasil não conhecesse os termo da delação da Odebrecht, o senador tucano passou mais da metade da entrevista criticando a corrupção (a do PT).

Cássio mais parecia um daqueles jovens ingênuos atenienses que eram levados para Creta e soltos no labirinto para serem caçados e devorados pelo Minoutauro. E o Minotauro nesse caso é Lula, esse monstro barbudo de nove dedos.

O verdadeiro labirinto de Cássio é eleitoral: os falsos caminhos que podem leva-lo a lugar nenhum, ou seja, à derrota eleitoral. O primeiro deles é que Cássio aposta hoje todas as suas fichas na candidatura de Luciano Cartaxo, mesmo sabendo que o prefeito pessoense pode, sem cerimônia, deixá-lo na mão caso avalie como duvidosas suas chances de vitória ao governo. Como fez quando deixou o PT.

Além disso, o ex-melhor amigo e ex-fiel escudeiro de Aécio Neves enquanto este era o todo poderoso presidente do PSDB e queridinho da mídia e do empresariado, o senador tucano não consegue se desvencilhar do desastre econômico, político e ético que associa seu partido, o PSDB, e ele próprio ao governo do PMDB que sucedeu Dilma Rousseff. Foi essa relação de confiança e proximidade com Aécio que levou Cássio à liderança do PSDB no Senado e a se tornar um dos líderes do movimento que levou Michel Temer ao poder.

Por isso, em outra escolha errada de direção, resta a Cássio bater em Lula para tentar ocupar o espaço do anti-lulismo num estado onde o ex-presidente – caso não impeçam sua candidatura − tende a superar a casa dos 70% dos votos em 2018.

Mesmo nesse intento, Cássio esbarra nos dados da realidade que tornam seu discurso em defesa da “ética” pura hipocrisia. Ele próprio responde a processo por ter recebido dinheiro não declarado da Odebrecht, em 2014, numa negociação que, segundo o delator, envolveu como barganha a privatização da Cagepa.

Além disso, todas as lideranças do PSDB, desde Aécio Neves, passando por José Serra e chegando ao “Santo” do Geraldo Alckmin, só para citar as mais proeminentes, todos ex-candidatos a presidente, estão enroladas em cabeludas denuncias de corrupção.

Confrontado pela corajosa e competente jornalista Adriana Bezerra, que mencionou um único contrato da Odebrecht com o governo paulista, a duplicação da Rodovia Mogi-Dutra no qual o Santo levaria 5% do valor do contrato, ou seja, 3,4 milhões de reais em propina de uma obra que custaria 68,7 milhões, Cássio optou por tratar os ouvintes como um bando de parvos: o que os tucanos receberam foi dinheiro de caixa-dois, mesmo que depositados em contas na Suíça ou em paraísos fiscais do Caribe. Ou em malas de dinheiro cuja prestação de contas jamais será feita.

Adriana poderia ter mencionado a corrupção do Metrô de São Paulo, um esquema que durou quase 20 anos e que desviou bilhões de reais. Fora os R$ 10,7 milhões que o cunhado de Alckmin recebeu do setor de propinas da Odebrecht – esse pelo menos não foi ameaçado de morte. E vejam que estamos falando de apenas uma empresa e de apenas algumas obras.

Eis o labirinto de Cássio em 2018. Montar um palanque capaz de enfrentar Ricardo Coutinho e, entre outras coisas, explicar ao eleitorado porque ajudou a levar ao poder a quadrilha de Michel Temer e suas relações com a Odebrecht.

*Professor Universitário e Cientista Político

Blog do Rubão

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