24 de maio de 2017 – O Massacre de Brasília, Um Relato de Quem Estava lá, por Eliezer Gomes*

Manifestação3Exatamente as 16 horas do dia 23 de maio de 2017, partimos de São Paulo com destino à capital do Brasil, Brasília – DF. Éramos uma caravana formada por 30 pessoas, entre homens e mulheres, jovens e adultos, e ocupávamos um micro-ônibus.

O motivo de nossa ida ao planalto central era o de participar da grande manifestação pública contra as reformas trabalhista e previdenciária convocada pelas centrais sindicais e outras organizações populares além de protestar pacificamente, porém, com firmeza, contra o governo ilegítimo e corrupto instalado no palácio do planalto, e exigir sua deposição propondo, em contrapartida, o estabelecimento, por parte dos poderes legislativo e judiciário, do processo de eleições #diretas já.

Foi uma viagem cansativa e longa devido ao grande número de ônibus vindos de vários Estados brasileiros seguindo o mesmo destino. Chegamos em Brasília, exatamente às 7h20m da manhã do dia 24 e o Distrito Federal já se encontrava literalmente ocupado por uma multidão, raras vezes vista naquele lugar.

O ponto central da concentração humana se deu no entorno do estádio de futebol Mané Garrincha, que se tornou pequenino para acomodar tamanha multidão.

Depois de nós, milhares de outras pessoas iam chegando e se acomodando em outros espaços, nas proximidades do Mané Garrincha. E o período da manhã foi todo reservado à um pouco de descanso para os manifestantes e preparação para a grande marcha rumo ao congresso nacional.

Manifestação1

Já passava das 13 horas, quando a multidão, a perder de vista, iniciou a caminhada com cânticos, palavras de ordem, defraudações de bandeiras e muito entusiasmo.

Seguíamos todos para o local programado, e até lá nos fortalecíamos muito mais ao vermos das sacadas dos edifícios de Brasília as manifestações espontâneas dos brasilienses em apoio a marcha, os automóveis fazendo seus buzinaços e acenando com o polegar erguido em nossa direção. Uma festa cívica em alto nível.

Ocorre que ao se consumar a grandiosa concentração, o local já se encontrava com fortíssimo aparato policial portando bombas de gás lacrimogêneo, balas de borrachas, armas potentes e apontadas para a multidão além de uma cavalaria de guerra. Mas nada disso intimidou a massa presente, pois, o objetivo era de caráter absolutamente pacífico e democrático.

Manifestação

Uma coisa que nos deixou profundamente intrigados, foi o seguinte: ao chegarem em Brasília todos os ônibus eram parados e revistados minunciosamente pela polícia local, chegando-se ao ponto de até simples facas de mesa, para descascar laranjas, encontradas nas dependências dos veículos eram subtraídas dos passageiros, entretanto, durante a manifestação com cerca de 150 mil pessoas presentes, eis que de repente, no meio da multidão, surge um agrupamento de pouco mais de 30 pessoas caracterizadas como os famosos Black’s Bloc’s se utilizando  de máscaras, roupas próprias para proteção contra a ação do gás lacrimogêneo, pedaços de pau, marretas, ferros e outros apetrechos e ali demarcam a sua área de ação. A pergunta é: de onde surgiram os tais? E por que não foram revistados?

Manifestação2

Depois, foi constatada a presença infiltrada entre os Black’s Bloc’s de alguns policiais que ao serem atacados pela polícia oficial apresentavam suas credenciais e eram liberados. Parte das perguntas estão respondidas, né verdade?

Voltemos ao ponto: a partir da chegada do citado agrupamento, a polícia local começa a atirar bombas de gás e de borracha contra os manifestantes que se portavam pacificamente e logo em seguida os “Black’s Bloc’s” estrategicamente seguem para a lateral da manifestação em sentido à esplanada dos ministérios, notadamente em um número menor, (pois, os infiltrados saíram de cena) e começou o quebra-quebra e a queima de pneus que misteriosamente apareceram aos montes (não se sabe de onde vieram, dando a entender que lá já estavam), porém, incompreensivelmente a polícia avançava contra os manifestantes, que continuavam a gritar suas palavras de ordem e exercerem o seu direito de se manifestarem de forma pacífica.

manifestação0

A ação da polícia promoveu um verdadeiro terror, com pessoas indefesas e fragilizadas pela ação do gás e atingidas pelas balas de borracha além do avanço da cavalaria contra a multidão e dos diversos rasantes realizados pelos helicópteros da Polícia do Distrito Federal no meio da manifestação, enquanto que o outro grupo promovia o quebra-quebra e a queima de pneus às margens da concentração popular, livremente!

A conclusão geral é de que aquela ação paralela foi criada e permitida justamente para justificar a investida criminosa contra o povo e fornecer aos meios de comunicação da mídia golpista elementos para a criminalização de mais um movimento cívico, pacífico e democrático promovido pelos trabalhadores e pelo povo brasileiro, ali representados.

manifestacao-contra-temer-brasilia-20170524-017

Vale salientar que a ação policial contra os “Black’s Bloc’s” só se deu efetivamente após a, repito, ação criminosa contra o povo, provocando centenas de entradas de vítimas feridas e machucadas no hospital de base daquele distrito. E muito estranho ainda foi constatar que não houve detenções entre os militantes “Black’s Bloc’s. O alvo realmente era destruir e criminalizar o movimento legítimo do povo brasileiro.

Ainda houve uma heroica resistência dos manifestantes, mesmo com desmaios e lacrimejos e dentro do congresso nacional uma outra guerra intestina das bancadas de oposição contra a ânsia dos golpistas em aprovar matérias contra a classe trabalhadora, o que vem efetivamente acontecendo desde que esse governo assumiu indevidamente o comando do país.

Para coroar o terror e audácia dos golpistas, o presidente ilegítimo, acuado, isolado e envolvido num verdadeiro mar de lamas, mais uma vez, infringindo a Constituição Federal decreta  intervenção militar em Brasília mostrando assim o seu caráter fascista e criminoso.

À noite, os meios de comunicação fizeram o seu papel de esconder a verdade e mostrar em suas edições o lado mentiroso dos fatos.

O fato concreto é que a manifestação dos trabalhadores brasileiros em Brasilia no ultimo dia 24 de maio, não obstante o massacre executado contra o povo foi uma demonstração inequívoca de que o país não aceita mais este governo, nem tão pouco as mazelas paridas por ele contra os direitos da classe trabalhadora. O desfecho final aponta claramente para novas e maiores manifestações e mais uma greve geral no país, brevemente.

*Sindicalista, Blogueiro e Historiador

Nota da redação: Em respeito aos nossos leitores e ao público em geral evitamos postar fotos com imagens de violências explícitas.

One Response to 24 de maio de 2017 – O Massacre de Brasília, Um Relato de Quem Estava lá, por Eliezer Gomes*

  1. Apesar da postura massacrante de uma polícia truculenta e audaciosa e dos sofrimentos dos corajosos jovens estudantes e calejados trabalhadores, ainda assim, a manifestação foi a grande vitoriosa! Desnudou, mais uma vez a incapacidade do temeroso de lidar com desafios e o seu “vale-tudo” para se manter no poder usurpado. Parabéns, brilhantes manifestantes, que se expuseram para lutar pelos nossos direitos. Meus sinceros respeitos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *